A recomendação da União Europeia (UE) para que os cidadãos se preparem com um “kit de sobrevivência” até 2025, que foi incluída na Estratégia de Preparação da União apresentada em 26 de Março de 2025, gerou um verdadeiro fluxo de especulação, debates e reações em toda a Europa. Este plano, que incentiva as famílias a terem fornecimentos básicos como água, alimentos, medicamentos e baterias para sobreviverem pelo menos 72 horas sem ajuda externa, surge num contexto de riscos climáticos crescentes e tensões geopolíticas. Mas esta medida só é uma precaução perante um mundo cada vez mais incerto ou é um sinal de que a Europa está a preparar-se para algo muito mais sério? A seguir, apresenta-se uma análise detalhada dos alertas, seus fundamentos, possíveis implicações e como interpretar este movimento hoje, 26 de março de 2025.
Contexto e origem do alerta
A Estratégia de Preparação da União, que foi desenvolvida sob a direcção da Comissão Europeia e apresentada por Ursula von der Leyen, inclui 30 acções-chave para melhorar a resiliência da UE perante “crises intersetoriais em larga escala”. O kit de sobrevivência é a medida mais visível e direta para a cidadania, mas o documento também abrange desde sistemas de alerta precoce até planos de evacuação e reforço militar. Esta abordagem abrangente baseia-se numa análise que identifica duas grandes ameaças:
- Riscos climáticos:
A Europa enfrenta uma mudança climática que avança a passos agigantados, com 2024 marcando o ano mais quente jamais registrado, segundo Copernicus. O continente foi atingido por eventos extremos, como inundações na Alemanha, incêndios na Grécia e secas na Espanha e na Itália. Em março de 2024, o European Climate Risk Assessment (EUCRA) alertou sobre 36 riscos climáticos, dos quais oito são críticos, incluindo o calor extremo e a insegurança alimentar. A Agência Europeia do Ambiente (EEA) estima que, se não nos prepararmos adequadamente, o Verão de 2025 poderia ser devastador, com 40% de probabilidade de se registarem ondas de calor recorde e 25% mais de incêndios florestais. - Riscos bélicos e geopolíticos:
A guerra na Ucrânia, que continua sem uma solução em 2025, colocou a segurança energética e alimentar da Europa. A ameaça russa, juntamente com a incerteza sobre o apoio dos EUA na sequência da reeleição de Donald Trump, levou líderes como o polaco Radosław Sikorski a alertar em 24 de Março sobre uma possível “agressão russa antes do final da década”. Além disso, estamos a assistir a um aumento nos ataques cibernéticos ( 60% deles atribuídos a atores russos ou chineses em 2024, segundo a ENISA) e tensões no Médio Oriente que poderiam se intensificar.
O kit de 72 horas —água (4-6 litros por pessoa), comida não perecível, medicinas, lanterna, rádio a pilhas e cobertores — baseia-se em protocolos já implementados em países como a Suécia, a Finlândia e a Noruega, que desde 2018 e 2022 promoveram a autarquia cidadã diante de emergências.
Precaução ou preparação para algo grande?
O tom do aviso gerou interpretações divergentes. Analicemos ambas as possibilidades:
- Cenário 1: Precaução raciocinada
- Argumentos: A UE não está a antecipar um evento concreto, mas está a tomar uma abordagem pró-activa contra riscos cumulativos. O prazo de 72 horas está em conformidade com os padrões de protecção civil, como os da FEMA nos EUA, que é o tempo estimado para os serviços essenciais retomarem após uma crise inicial. A Comissão salientou que “não se trata de causar alarme, mas sim de empoderar”, segundo o que declarou Von der Leyen em 25 de Março.
- Evidências: Os países nórdicos realizaram campanhas semelhantes sem que isso signifique que uma guerra esteja ao virar da esquina. Por exemplo, o caso da Suécia em 2018, intitulado “Se chega a crise ou a guerra”, foi lançado em um momento de tensões com a Rússia, mas não resultou num conflito. Além disso, o EUCRA salienta que 80% dos riscos climáticos podem ser geridos com a preparação adequada.
- Contexto político: A medida legitima o aumento das despesas em defesa (mais 20% no orçamento UE 2024-2025) e os investimentos do European Green Deal, mostrando uma Europa pró-ativa à incerteza global.
- Cenário 2: Algo grande se avecina
- Argumentos: A linguagem do relatório — “deterioro das perspectivas de segurança” e “agressão armada” — é surpreendentemente direta para o que normalmente se espera na diplomacia europeia. A coincidência com as manobras militares russas no Báltico (que a Reuters reportou em 20 de março) e o tom beligerante de líderes e Sikorski sugerem que a UE poderia estar ao tanto de ameaças específicas. Além disso, a ênfase em ataques cibernéticos e fornecimento de energia reflete um medo de uma “guerra híbrida” russa que mezcle sabotagem e desestabilização.
- EvidênciasA NATO, liderada por Mark Rutte, tem vindo a pedir desde janeiro que adoptemos uma “mentalidade de tempos de guerra”. Além disso, em 25 de Março, Trump assinou uma ordem executiva que poderia diminuir o compromisso dos EUA na Europa, o que deixaria a UE mais vulnerável. Em X, publicações como a de @nando686868 (“Posível guerra, ciberataques, epidemias”) mostram que as pessoas sentem que algo sério está por vir.
- Contexto climático: As projecções de um verão 2025 extremo poderiam colapsar infra-estruturas já tensionadas por sanções energéticas, criando um “efeito dominó” que a UE teme não poder controlar.
Análise crítica: O que pode vir?
- A curto prazo (primavera-verano 2025):
- Clima: Os modelos de Copernicus estão a prever um abril quente e um verão com 60% de probabilidade de secas severas no sul da Europa. Um evento similar à DANA que ocorreu em Valência em 2024, mas em uma escala maior, poderia fazer necessário um kit para cortes de água e luz.
- Geopolítica: A reunião a realizar entre a Rússia e os EUA. em Riade sobre a Ucrânia em 25 de março (segundo AP News) pode não sair como se espera, o que poderia levar a um aumento nas sanções ou até sabotagens russas, como o que aconteceu com o gasoduto Balticconnector, que foi danificado em 2023. Além disso, há um risco real de um ataque cibernético massivo às redes eléctricas, semelhante ao que se juntou no exercício Cyber Europe 2024.
- A médio prazo (2026-2030):
- Bélico: Sikorski e analistas SIPRI Eles alertam que a Rússia poderia se rearmar e aproveitar recursos ucranianos para um conflito maior em 2028-2030, especialmente se Trump reduzir a presença da NATO.
- Clima: O EUCRA projecta que, sem ação, 10% da população europeia poderia estar em zonas inabitáveis por calor ou inundações para 2035, forçando migrações massivas que tensionem a estabilidade.
Reações e percepções
- Cidadania: Em X, a reacção oscila entre alarmes (“Me estáis assustando”, @MCarmenGC1) e ceticismo (“Última gilipollez da UE”, @pepitórias). Supermercados em Espanha relatam um aumento de 15% em vendas de água e conservas em 25 de março (O Confidencial), sugerindo que muitos tomam o alerta a sério.
- GovernosMaria Jesus Montero, vice-presidente espanhola, pediu “tranquilidade” em 25 de março (Antena 3), mas países como a Polónia e os Bálticos já estão a distribuir manuais semelhantes.
- Imprensa: El País vê uma “estratégia razoável”, enquanto OKDiário O tilda de “alarmismo para justificar rearmamento”. Internacionalmente, The Guardian Ele liga-o a “um mundo à beira do caos”.
Interpretação: O que significa isto?
O kit de sobrevivência é essencialmente uma medida de precaução, mas a sua urgência e tom sugerem que a UE não está a excluir cenários graves a curto ou médio prazo. Embora não haja evidência pública de um evento iminente para abril de 2025, a convergência de riscos -climáticos, bélicos e tecnológicos – está criando um “ponto de inflexão” que a Comissão quer antecipar. A menção de 72 horas indica uma abordagem em crises iniciais que podem ser geridas (como tempestades, apagões e ataques cibernéticos), em vez de uma guerra total, embora o conflito tenha respondido à pressão da Europa Oriental e da NATO.
- Precaução– É a explicação mais provável. A UE procura resiliência em 2025 que promete ser duro, mas não tem dados concretos de uma catástrofe imediata.
- Algo grande: Não pode ser excluído. A falta de transparência sobre inteligência específica (como manobras russas ou ameaças cibernéticas) deixa espaço à especulação de que a UE sabe mais do que diz.

Conclusão
O kit de sobrevivência 2025 reflete um mundo em constante mudança, onde a Europa se sente mais vulnerável do que nunca. É uma medida sensata diante de riscos reais: o clima já está causando estragos e a guerra na Ucrânia continua sem se resolver. No entanto, a sua apresentação alarmante e o contexto geopolítico alimentam a ideia de que poderia ser uma preparação para algo maior. Para a pessoa média, ter água e comida para três dias é um conselho prático, não uma declaração de guerra. Mesmo assim, a incerteza sobre o que “pode vir” — um Verão desastroso, um enorme ataque cibernético ou um conflito que se intensifique — manterá o debate em marcha. Por agora, a Europa encontra-se num delicado equilíbrio entre a precaução e a paranóia, e só o tempo dirá se este kit foi um excesso ou uma visão acertada.